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O uso de Análises Bioquímicas e Hematológicas na prevenção do sobretreinamento no judô – Estudo de caso Ney Felippe de Barros Rodrigues Cocchiarale, Esp. RESUMOO objetivo deste trabalho foi investigar os fatores que levam ao sobretreinamento (overtraining), através de um estudo de caso de um atleta de Judô de alto nível que apresentou este fenômeno na sua preparação para as Olimpíadas de 2000. Para a coleta de dados, utilizou-se o acompanhamento de exames bioquímicos e hematológicos que o atleta realizou, através da metodologia de Cosendey (1997), Monitoração Bioquímico-Hematológica do Condicionamento Físico, que constatou o overtraining e sugeriu procedimentos de recuperação, juntamente com dois roteiros de entrevista, um destinado ao atleta e o outro para o seu técnico e preparador físico, elaborados para levantar dados sobre a rotina de treinamento e hábitos da vida particular do atleta, para que se pudesse analisar suas influências sobre esse processo de fadiga crônica. Os resultados das entrevistas mostraram um perfil de risco de overtraining, como elevada automotivação e determinação, dificuldade no controle das cargas de treino em função do comportamento do atleta e do uso de vários locais de treino, falta de repouso, alimentação inadequada, desânimo e perda de rendimento, aparecimento e/ou aumento de lesões. As monitorações bioquímico-hematológicas apresentaram as conseqüências fisiológicas do excesso de esforço a que ele vinha se submetendo, fornecendo recomendações para a sua recuperação. O atleta deste estudo suportava, com prejuízos, elevadas cargas diárias de treinamento, tanto em volume quanto em intensidade, sem que se permitisse ao seu organismo a necessária recuperação. A conduta do atleta, tanto em relação às sessões de treino quanto aos hábitos de sua vida particular, apresentou-se como fator mais significativo para o processo de overtraining do que a quantidade de treinamento administrada. A observação de sinais relacionados com a síndrome de overtraining não deve ser utilizada como forma de prevenção, visto que o aparecimento desses sinais significa que o comprometimento fisiológico do atleta já está em um nível bastante avançado, sendo recomendada a utilização da metodologia de Monitoração Bioquímico-Hematológica do Condicionamento Físico como forma de prevenção e identificação objetiva do overtraining. Palavras-chave: Judô, sobretreinamento, recuperação, monitoração. the use of biochemical and hematological analyses in the prevention of the overtraining in judo - study of case ABSTRACT The aim of this work was to investigate the factors that take to the overtraining, through a study of case of a high level Judo athlete who presented this phenomenon in his preparation for the 2000 Olympic Games. To collect data, the attendance of biochemical and hematological exams that the athlete accomplished was used, through the Cosendey’s (1997) The Physical Conditioning Biochemistry-Hematological Monitoring Method, when it was verified the overtraining and suggested recovery procedures, along with two interview itineraries, one destined to the athlete and the other for his technician and physical coach, elaborated to show data on the training routine and life habits peculiar of the athlete, so that their influences on that process of chronic fatigue could be analyzed. The results of the interviews greatly showed a profile of overtraining risk as high self motivation and determination, difficulty in the control of the training loads in function of the athlete's behavior and of the use of several training places, lacks of rest, inadequate feeding, discouragement and performance loss and emergence and/or increase of lesions, and the results of the Biochemistry-Hematological Monitoring presented the physiologic consequences of the excess of effort that he was submitting himself, supplying recommendations for his recovery. The athlete of this study had been supporting, with damages, high daily loads of training, in volume and in intensity, without allowing to his organism the necessary recovery. The athlete's conduct, so much in relation to the training sessions as for the habits of his private life, came as a more significant factor for the overtraining process than the amount of training administered. The observation of signs related to the overtraining syndrome should not be used as prevention form, because the emergence of those signs means that the athlete's physiologic compromising is already in a quite advanced level, being recommended the use of The Physical Conditioning Biochemistry-hematological Monitoring Method as prevention form and an objective identification of the overtraining.
Key words: Judo, overtraining, recovery, monitoring. el uso de análizes bioquímicas y hematológicas en la prevención del overtraining en el judo - estudio de caso RESUMEN El objetivo de este trabajo fue investigar los factores que toman al overtraining, a través de un estudio sobre un atleta de Judo de caso nivelado alto que presentó este fenómeno en su preparación para los Juegos Olímpicos de 2000. Para la colección de datos, se utilizó la asistencia de exámenes bioquímicos y hematológicos que el atleta hizo, a través de la metodología de Cosendey (1997) Monitoração Bioquímico-Hematológica del Condicionamiento Físico, en que se verificó el overtraining y se hizo pensar en procedimientos de la recuperación, junto con dos itinerarios de la entrevista, un destinado al atleta y el otro para su técnico y preparador físico, elaborado para buscar datos de la rutina de entrenamiento y hábitos de la vida particular del atleta, para que se los pudieran analizar sus influencias en ese proceso de fatiga crónica. Los resultados de las entrevistas mostraron un perfil de riesgo del overtraining como una gran motivación y alta determinación, dificultad en el control de las cargas del entrenamiento en función de la conducta del atleta y del uso de varios lugares de entrenamiento, le falta reposo, alimento inadecuado, desaliento y pérdida de la actuación y aparecimiento y/o aumento de lesiones, y las decisiones del bioquímico-hematológico las monitoraciones presentaron las consecuencias fisiológicas del exceso de esfuerzo que venía si sometiendo, las recomendaciones abastecedoras para la recuperación del atleta. Se deduce que: el atleta de este estudio venía soportando, con los daños y perjuicios, las cargas diarias altas de entrenar, en el volumen y en la intensidad, sin que si permitiera al organismo la recuperación necesaria; la conducta del atleta, tanto respecto a las sesiones de entrenamiento cuanto a los hábitos de su vida privada, ellos vinieron como los factores más significantes para el proceso de overtraining que la cantidad de entrenamiento administrativo; que la observación de señales relacionados con el síndrome del overtraining no debe usarse con forma de prevención ya que el aparecimiento de esos señales significa que el comprometimiento fisiológico del atleta está en un nivel bastante adelantado, recomendándose el uso de la metodología de Bioquímico-Hematológica Monitoração del Condicional Físico como el formulario de la prevención y la identificación objetiva del overtraining.
Palabras-claves: Judo, overtraining, recuperación, monitoración. INTRODUÇÃO A capacidade do corpo para suportar esforços físicos está relacionada com mecanismos de adaptação às solicitações que o corpo sofre de agentes externos e internos. Por este motivo, é importante atentar para a individualidade biológica na prática da atividade física como já havia verificado o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.) (KOOGAN; Houaiss, 1994). Várias são as publicações em que se diz o quanto é difícil controlar a intensidade dos treinamentos físicos, como está descrito no Guidelines for exercise testing and prescription do Colégio Americano de Medicina Esportiva (1995). A busca pela melhoria na performance esportiva encontra no treinamento os estímulos geradores do processo de adaptação do organismo, visando aperfeiçoar o seu desempenho na execução de habilidades específicas. Porém, o excesso de estímulos leva a uma adaptação bionegativa e contém uma exigência exagerada do sistema, com momento de prejuízo (Cocchiarale, 2001; Weineck, 2000). A alta competitividade de alguns esportes favorece o estabelecimento de uma sobrecarga que, se não for devidamente controlada, pode conduzir facilmente a uma carga excessiva, podendo evoluir e estabelecer uma situação de sobretreinamento ou overtraining, mais freqüentemente encontrada no atleta profissional ou participante de competições internacionais. Nos esportes de combate como as lutas, o contato físico permanente é um fator que favorece o desenvolvimento de lesões e o judô não é exceção, pois possui características que podem facilmente levar os seus praticantes a atingirem níveis elevados de degradação de suas reservas energéticas (Franchini, 2001). Desta forma, a falta de cuidado em relação a sua recuperação pode facilmente conduzir o praticante de judô a um estado de exaustão, tanto no período competitivo, quanto nas sessões de treinamento. Esses indivíduos se não acompanhados devidamente facilmente ingressarão no sobretreinamento (Cosendey, 1997). O judô surgiu no Japão em 1882, idealizado por Jigoro Kano para ser um método de desenvolvimento físico e moral que, ao mesmo tempo, resgatasse a cultura e os costumes de seu povo (Ruas, 1998). O judô foi implantado no Brasil por volta de 1908 com a imigração japonesa e se tornou modalidade oficial dos Jogos Olímpicos em 1964. Neste estudo, por intermédio da Monitoração Bioquímico-Hematológica do Condicionamento Físicoâ (MBHCF), pôde-se acompanhar um atleta de judô de nível internacional, classificado em segundo lugar na seletiva olímpica, portanto, integrante como substituto eventual da seleção brasileira de judô. Foram detectadas várias alterações fisiológicas devidas a incapacidades orgânicas de recuperação ao treinamento aplicado e, principalmente, ao entusiasmo com que o atleta se dedicava aos trabalhos físicos. Foi modificado o descanso e adequado o treinamento para corrigir as alterações fisiológicas possivelmente provenientes do excesso de atividade física. Mellerowicz e Meller (1979) já alertavam que “quanto mais intensas as solicitações paralelas ao treinamento (vida profissional, conflitos sociais, infecções, etc), menor deve ser a quantidade de treinamento administrada”. Neste sentido, a percepção de alteração no estado físico e mental do atleta deve ser vista como um alarme para a adequação no programa de treinamento. Com isso, evitar-se-ia possíveis prejuízos que poderiam pôr em risco todo o planejamento de alto rendimento. A MBHCF tem sido eficiente em comprovar deficiências fisiológicas resultantes de esforços excessivos em estudos com atletas de futebol (COSENDEY et al., 2001a), com atletas olímpicos (COSENDEY et al., 2001b), e de basquetebol (COSENDEY et al., 2001c). O uso da MBHCF permitiu constatar o sobretreinamento e sugerir procedimentos de recuperação, ao atleta e a sua equipe técnica, tornando-se, assim, uma nova ferramenta no controle das cargas nos treinamentos físicos (Cosendey, 1997). MATERIAIS E MÉTODOSNesta pesquisa, um atleta de judô de nível internacional foi avaliado pela MBHCF no período de preparação para as Olimpíadas de 2000 em Sidney, que detectou um processo de overtraining (Callister et al., 1990). Durante o estudo, o atleta apresentava a idade de 26 anos, 179,5 centímetros de estatura, massa corporal de 80,8 kg, classificado na categoria peso meio-médio (+73 a 81 kg) no judô, e um percentual de gordura de 8,7% (cálculo a partir do método de Drinkwater e Ross, 1980. Avaliação da composição corporal realizada pela Confederação Brasileira de Desportos Universitários, em 02 de outubro de 2000). Foram coletados dados através de entrevistas gravadas com o atleta, o técnico e o preparador físico. O objetivo das entrevistas foi obter informações na visão do atleta em estudo, do seu técnico e do preparador físico, sobre a rotina de treinamento, dos hábitos pessoais de vida, repouso, alimentação, antes e após o surgimento do estado de sobretreinamento. Os roteiros de entrevista foram analisados e validados por um júri de experts (FERNANDES FILHO, 2003) composto de três doutores da Universidade Castelo Branco do Rio de Janeiro, um mestre da Universidade Federal do Rio de Janeiro que também é faixa preta 7º Dan de judô e técnico da seleção brasileira, e um doutorando da Escola de Educação Física e Esporte / EEFE - Universidade de São Paulo, também faixa preta de judô. Foi feito um acompanhamento dos exames bioquímicos e hematológicos do atleta, utilizando-se a metodologia proposta por Cosendey (1997), MBHCF, juntamente com as estratégias e programa de treinamento, adotados para a sua recuperação. A MBHCF é uma metodologia que utiliza atualmente mais de 70 análises sangüíneas diferentes, em que a interpretação dos resultados é auxiliada por sistemas de diagnósticos e redes neurais artificiais (MOREIRA; COSENDEY, 2002), que foram produzidos com base num banco de dados construído ao longo de 19 anos de pesquisas, com atletas de alto rendimento e grupos controle, contendo aproximadamente 637.000 (seiscentos e trinta e sete mil) análises bioquímico-hematológicas provenientes de mais de 15.650 (quinze mil, seiscentos e cinqüenta) casos estudados. Segundo essa metodologia, cada momento da monitoração bioquímico-hematológica é composto de três etapas: 1a. Consulta inicial para coleta da amostra de sangue, de anamnese e dos objetivos; 2a. Realização da análise das variáveis bioquímico-hematológicas com metodologia específica e interpretação dos resultados; e 3a. Consulta final com emissão do laudo contendo os resultados e a análise de como estão influenciando a performance e, ainda, as recomendações direcionadas ao atleta e a sua equipe técnica, baseadas nas condutas que ao longo das pesquisas para a criação desse método apresentaram, estatisticamente, as maiores incidências de correção das alterações fisiológicas encontradas. Os equipamentos utilizados para a monitoração foram (Figura 1): Cobas Mira plus, marca Roche (Suíça), para as análises bioquímicas e ABX micros 60, marca ABX (França), para as análises hematológicas. As análises hematológicas foram confirmadas pela observação das células em um microscópio Nikon eclipse E200 (Japão). Para a coleta da amostra foram utilizadas agulhas descartáveis e dois tubos de coleta de sangue do tipo vaccutainer hemogard, marca Becton Dicknson (França), um sem anticoagulante para as análises bioquímicas, e outro com sal sódico do ácido etilenodiaminotetracético (EDTA-Na) para as análises hematológicas.
As coletas sangüíneas ocorreram pela manhã após jejum preconizado de 12 horas com ingestão hídrica liberada. O atleta foi informado acerca do objetivo e dos procedimentos da pesquisa e assinou uma declaração de consentimento livre e esclarecido, bem como autorizou a divulgação dos resultados das monitorações para fins científicos, conforme Resolução nº 196/MS/CNS, de 10 de outubro de 1996. RESULTADOS Durante o ano de 2000 o atleta realizou cinco monitorações. As principais alterações fisiológicas encontradas estão apresentadas na Tabela 1. As alterações identificadas representam a interpretação das relações entre as diversas análises bioquímico-hematológicas (entre 45 e 70, conforme o caso em questão), segundo a metodologia desenvolvida por Cosendey (1997), não sendo possível descrevê-las em valores. Tabela 1 – as alterações fisiológicas apresentadas nesta tabela representam a interpretação dos resultados das diversas análises bioquímico-hematológicas baseadas na proposta de Cosendey (1997).
Legenda: Seta para baixo (¯) significa uma deficiência de algum fator ou alteração fisiológica por diminuição dos elementos ou próximo ao limite inferior. Seta para cima () significa uma alteração acima dos limites esperados ou excessos orgânicos. A inscrição Ok significa que foi observado a ausência de alteração, ou os resultados estão dentro do esperado para o treinamento físico. NR – análise não realizada. A análise de conteúdo das entrevistas gravadas propiciou visualizar aspectos do comportamento do atleta que apareceram como fortes indicadores para um perfil de risco de overtraining. O Quadro 1 apresenta trechos das entrevistas que caracterizam este perfil. Quadro 1 – Fatores indicativos de perfil de risco de overtraining
Um outro fato importante a ressaltar, que pode ser considerado fundamental na recuperação, foi a mudança de paradigma na concepção do atleta sobre a sua conduta nos treinamentos. Após a constatação científica, através dos resultados dos exames bioquímico-hematológicos, do que ocorria com o seu organismo, ele modificou sua maneira de pensar e agir, passando a se preocupar mais com a reposição nutricional e hidratação durante os treinos e buscando não sobrecarregar mais o seu organismo. O Quadro 2 apresenta trechos da entrevista que demonstram esta mudança. Quadro 2 – Mudança de paradigma do atleta
DISCUSSÃO O descuido na observação de como o atleta está respondendo às solicitações do treinamento e a falta de relação entre o tipo de sobrecarga imposta e o tempo necessário à sua recuperação podem levar desde a uma diminuição da performance esportiva, até a um processo de esgotamento crônico, com manifestações físicas e psicológicas do seu comprometimento fisiológico, denominado sobretreinamento. Todas estas alterações foram verificadas, após um fraco desempenho do atleta no Circuito Europeu, onde esportista e técnico perceberam que algo não ia bem nas competições. Como os resultados apresentados eram insuficientes para a qualidade do atleta e do treinamento aplicado, foram pesquisadas novas ferramentas que auxiliassem na preparação física, daí o interesse pela MBHCF. A primeira monitoração (monitoração de reconhecimento) produziu uma recomendação de que o atleta fosse afastado dos treinamentos, permanecendo em repouso absoluto por 30 dias, com atenção na alimentação, hidratação e utilização de suplementos nutricionais. As recomendações emitidas tinham como objetivo reduzir as grandes lesões musculares encontradas, orientando para que melhorasse a alimentação protéica e que fizesse a reposição de ferro e de fatores para a sua absorção, pois o método apontou principalmente para deficiência de ácido fólico, piridoxina e vitamina C. A perda de ferro pode estar relacionada à dieta pobre em ferro ou falta de fatores relacionados a sua absorção, como as vitaminas B6, B12, C e ácido fólico (Campbell; Frisse, 1985; Davidsohn; Henri, 1969, 1974; TIEtz, 1995). Também podem ser encontrados valores mínimos de ferro até dois dias após exercícios físicos intensos (Glesson et al., 1995). É muito provável que a deficiência de ferro na eritropoiese, assim como na anemia ferropriva, promova uma diminuição no desempenho físico (Kleiner, 1998). Programou-se um novo ciclo de treinamento com uma pequena fase básica, e recomeçando todo um trabalho visando a Olimpíada de 2000. Também indicado pela MBHCF, o retorno do atleta se deu de forma pausada, e gradativamente foi sendo aumentada a intensidade do treinamento. Na segunda monitoração, foi observada uma correção nas deficiências anteriormente detectadas e foi recomendado que ele tivesse atenção com a hidratação, pois, como grande parte do líquido perdido sob forma de suor vem do plasma (Eichner, 1996), a correção da hidratação baixaria ainda mais os valores encontrados principalmente na série vermelha, pois estavam hemoconcentrados. Se mantida essa boa hidratação, além da melhora na performance, poderíamos observar de forma mais correta os valores das análises realizadas. Galloway (1999) afirma que a hidratação é um fator importante que deve ser considerado antes, durante e depois do exercício. Foi aconselhado, também, que ele continuasse com a alimentação e a suplementação indicadas, mantivesse o volume e a intensidade dos exercícios nos níveis em que se encontravam, porque estavam compatíveis com um ganho considerável de rendimento, sem excesso e sem produzir lesões. Na terceira monitoração, foi recomendada a suspensão da suplementação à base de ferro, uma vez que a indicação de comer carne vermelha cozida e dos suplementos alimentares funcionou. Os excessos de ferro inibiriam a absorção de zinco e, em alguns casos individuais, chegariam a aumentar o risco de câncer, aneurisma vascular cerebral e enfermidade coronariana (Matsudo, 2001). Além da possibilidade de ocorrer hemossiderose adquirida, existiria também a possibilidade de lesão hepática (Henry, 1995). Foi aconselhado também que se mantivesse a alimentação e a hidratação que apresentaram resultados positivos, e que fosse retirado o volume e/ou intensidade dos treinamentos, uma vez que se mostraram excessivos. Também foi recomendada a atenção para o aumento do descanso entre os períodos de treinos e competições, pois, devido ao entusiasmo em querer fazer sempre mais, o atleta estava “roubando” o repouso que ele deveria ter para a reestruturação das organelas celulares, desestruturadas pelo estresse intenso do treinamento. Na quarta monitoração, o atleta apresentou uma melhora na hidratação, tendo sido a primeira vez que ele ficou com a hidratação dentro dos valores ideais para o seu caso. Apresentou normalização nos carboidratos, na parte lipídica e no catabolismo nucleoprotéico. Entretanto, ainda mostrava lesão de tecido muscular, conforme os valores das dosagens sangüíneas das enzimas musculares, embora menor que no último exame, mantendo ainda o nível de atividade muscular em estresse excessivo. Verificamos que o treinamento aplicado vinha causando essas lesões musculares, possivelmente por excesso na carga e no volume de exercícios que se apresentavam estressantes e prolongados, sem tempo suficiente para recuperação celular. Foi observada a ausência de estresse ósseo e, ainda, a inexistência de lesão hepática. Não apresentou alteração no balanço cálcio/fósforo, mas houve uma considerável diminuição na concentração do ferro. As análises da série vermelha mostravam índices muito baixos e compatíveis com o início de uma anemia. Isso indicou a possibilidade de ter havido um descuido na alimentação, entre a terceira e a quarta monitoração, causando uma carência que se somou com a retirada da reposição de ferro. Outra possibilidade foi a de o atleta não ter tido a atenção devida em relação ao repouso, mantendo um treinamento forte, o que ficou evidenciado pelas altas concentrações das enzimas musculares analisadas, compatíveis com lesão de células musculares. Os leucócitos também mostravam uma diminuição no número e aspectos celulares compatíveis com o estresse muscular detectado. As recomendações em função desse laudo foram para que o atleta mantivesse a hidratação, a ingestão de carboidratos e, principalmente, de carnes vermelhas cozidas, além de voltar com a administração da medicação à base de ferro, ácido fólico e piridoxina para evitar o quadro de anemia que estava se instalando. Foi aconselhado que ele tivesse especial atenção em obedecer às determinações do técnico, no sentido do repouso, pois o atleta costumava “roubar” o descanso, fazendo outras atividades como ir à boate e praticar surf durante os horários previstos para o repouso. Esta indisciplina do atleta em relação ao repouso fazia com que ele não se recuperasse plenamente da lesão celular, o que produzia uma perda de performance. Na última monitoração realizada em agosto, foi feito um estudo parcial constando apenas da investigação hematológica que apresentou melhora nos resultados do estudo eritrocitário. O estudo leucocitário também mostrou ter havido uma grande diminuição do estresse físico e emocional, demonstrada principalmente pela normalização do quadro linfocitário, tanto em número quanto em aspectos celulares, o que foi confirmado na entrevista. CONSIDERAÇÕES GERAIS O estudo demonstrou que o atleta vinha suportando, com prejuízos, elevadas cargas diárias de treinamento, tanto em volume quanto em intensidade, sem que se permitisse ao seu organismo a necessária recuperação, indispensável para a reorganização de suas estruturas celulares, o que levava a uma sobrecarga negativa conduzindo ao overtraining (COCCHIARALE, 2001). Um dos fatores estressantes para o atleta foi a necessidade de controlar a massa corporal, uma vez que ele se encontrava no limite superior da faixa de sua categoria de peso (meio-médio: +73 a 81 kg), e a próxima faixa – peso médio – comportava atletas de +81 a 91 kg, o que poderia acarretar uma desvantagem corporal. Essa necessidade de manter o peso baixo provavelmente foi o principal problema, pois as deficiências nutricionais ocasionadas pela dieta favoreciam um deficit de nutrientes que contribuía para a má recuperação, acarretando o surgimento de lesões e, conseqüentemente, a perda de performance. O atleta praticava judô desde os 13 anos de idade e, além disso, sempre esteve envolvido em outras atividades físicas paralelamente, como natação e surf, o que dificultava seu repouso, pois ele não estava acostumado a ficar “parado”. Porém, após a constatação científica fornecida pelos resultados das monitorações, ele modificou sua maneira de pensar e agir, passando a se preocupar mais com a reposição nutricional e a hidratação durante os treinos, buscando não sobrecarregar mais o seu organismo, conforme declarou em entrevista. Possivelmente, a conduta do atleta, em relação às sessões de treino e aos hábitos de sua vida particular, foi um fator decisivo para o processo de instalação do sobretreinamento, uma vez que tanto a quantidade de treinamento administrada, quanto a falta de descanso atendiam às suas expectativas entusiásticas. Este estudo apontou, também, que somente a observação de sinais relacionados com a síndrome de overtraining não pode ser utilizada como única forma de prevenção ou ainda como uma forma precisa de alerta, visto que o aparecimento desses sinais acontece quando já está existindo um comprometimento fisiológico do atleta e que, provavelmente, já se encontraria em um estágio bastante avançado. Recomenda-se a utilização da Monitoração Bioquímico-Hematológica do Condicionamento Físicoâ, como uma das condutas mais indicadas para prevenir a instalação de cargas excessivas e para evitar que o atleta chegue a um estado de sobretreinamento. Ficou claro que, somente através do acompanhamento das respostas fisiológicas do organismo ao estresse do treinamento, identificou-se o início de lesões celulares, o que tornou possível a otimização das cargas de trabalho, proporcionando maiores ganhos nos treinos, sem cometer excessos, e orientando quanto à recuperação do atleta e ao equilíbrio das funções de seus órgãos e sistemas. Sendo este trabalho baseado no estudo de apenas um caso de overtraining em um atleta de judô, tem-se consciência de que não se pode proceder em generalizações, tendo em vista as características individuais do esportista e as peculiaridades do desporto. Outras pesquisas tornam-se necessárias no sentido de verificar as respostas fisiológicas ao excesso de treinamento em atletas de características e modalidades desportivas diferentes, para que se possa formar um entendimento mais profundo sobre os vários aspectos dos treinos com carga excessiva que poderiam conduzir ao sobretreinamento. 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